Dra. Daniela Gontijo – Dermatologista

A psoríase é uma doença inflamatória crônica da pele que afeta aproximadamente 2% da população mundial. Embora não seja contagiosa, causa lesões que podem gerar coceira, ardência e, em muitos casos, impacto emocional significativo, sobretudo em crianças e adolescentes. Quando não tratada adequadamente, a psoríase pode deixar manchas esbranquiçadas, avermelhadas ou até mesmo cicatrizes que perduram por toda a vida. Neste artigo, vamos explorar o que é a psoríase, entender por que ela é considerada uma doença autoimune, conhecer seus diferentes tipos e, principalmente, destacar a importância de um tratamento completo — desde intervenções de curto prazo até o acompanhamento de longo prazo com o mesmo dermatologista

Dra. Daniela Gontijo Andrade Junqueira

Dra. Daniela é médica Dermatologista, com mais de 20 anos de experiência, especializada em Dermatologia Adulto e Infantil, com formação sólida em Pediatria e Dermatologia Pediátrica. Membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia e da Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica, une expertise clínica e compromisso com o cuidado integral da pele em todas as fases da vida.

O que é psoríase?

  1. Definição: A psoríase é caracterizada pela proliferação acelerada das células da epiderme (camada mais externa da pele), que se acumulam formando placas espessas, escamosas e avermelhadas.
  2. Epidemiologia: Acomete igualmente homens e mulheres, e costuma surgir entre os 15 e 35 anos, embora possa se manifestar em qualquer faixa etária. Em crianças, o diagnóstico precoce é fundamental para evitar o estigma social e as complicações da doença.
  3. Fatores de risco:
    • Genética: histórico familiar de psoríase em parentes de primeiro grau.
    • Desencadeantes ambientais: estresse, infecções (como faringites), alterações climáticas (especialmente clima seco ou frio) e certos medicamentos.
  4. Por que é crônica? Uma vez instalada, a psoríase tende a ter um curso intermitente, com períodos de melhora (remissão) e piora (exacerbações). Embora não haja cura definitiva, existe um amplo leque de tratamentos capazes de controlar os sintomas e melhorar a qualidade de vida.

Doenças autoimunes: fundamentos e mecanismos

  1. O que são doenças autoimunes?
    Doenças autoimunes ocorrem quando o sistema imunológico, responsável por defender o corpo contra agentes externos, “confunde” estruturas saudáveis como invasores e passa a atacá-las. Esse erro de reconhecimento leva à inflamação crônica e ao dano tecidual.
  2. Mecanismo imunológico na psoríase:
    • Ativação de células T: Na psoríase, células T (linfócitos de defesa) migram até a pele e liberam citocinas inflamatórias (como TNF-α, IL-17 e IL-23).
    • Resposta em cascata: Essas citocinas estimulam queratinócitos (células da pele) a se multiplicarem rapidamente, formando as placas características.
  3. Por que ocorre essa disfunção?
    • Genética: Variações em genes ligados ao controle imunológico tornam algumas pessoas mais suscetíveis.
    • Fatores ambientais: Infecções, traumas de pele (fenômeno de Koebner), tabagismo, álcool e estresse podem desencadear crises em indivíduos predispostos.
  4. Implicações gerais: Além das manifestações cutâneas, a inflamação sistêmica associada à psoríase pode aumentar o risco de artrite psoriásica, doenças cardiovasculares, síndrome metabólica e depressão.

Tipos de psoríase

  1. Psoríase em placas (vulgar):
    • A forma mais comum (cerca de 80–90% dos casos).
    • Lesões bem delimitadas, escamosas, principalmente em cotovelos, joelhos e couro cabeludo.
  2. Psoríase gutata:
    • Pequenas lesões pontiagudas, em geral surgem após infecção por estreptococo.
    • Mais frequente em crianças e adultos jovens.
  3. Psoríase invertida (flexural):
    • Localizada em áreas de dobras (axilas, virilha, sob os seios).
    • Placas menos escamosas, mas muito vermelhas e úmidas.
  4. Psoríase pustulosa:
    • Presença de pústulas estéreis (sem infecção bacteriana).
    • Pode ser localizada (palmas e plantas) ou generalizada.
  5. Psoríase eritrodérmica:
    • Forma rara, porém grave, acomete quase toda a superfície do corpo, levando a descamação intensa e risco de desidratação e infecções secundárias.

Por que tratar corretamente?

  1. Controle das manifestações cutâneas: O tratamento adequado reduz a intensidade das placas, melhora a coceira e diminui a descamação.
  2. Prevenção de manchas e cicatrizes: Lesões muito profundas ou crônicas podem deixar manchas hipocrômicas (pele mais clara) ou cicatrizes permanentes.
  3. Redução da inflamação sistêmica: Evitar picos de inflamação cutânea ajuda a diminuir o risco de comorbidades (artrite, doenças cardíacas, alterações metabólicas).
  4. Qualidade de vida: A prurido (coceira) e o aspecto visual das lesões impactam a autoestima e podem gerar isolamento social, especialmente em crianças e adolescentes.
  5. Economia de recursos: Quanto mais avançada a doença, mais complexo e custoso torna-se o tratamento. Intervenções precoces são, muitas vezes, mais simples e eficazes.

Abordagens terapêuticas


A escolha do tratamento depende da extensão, gravidade, localização das lesões, resposta prévia e presença de comorbidades. Vamos dividir em curto, médio e longo prazo.

  1. Tratamentos de curto prazo
    • Emolientes e hidratantes: Primeira linha para manter a barreira cutânea e amenizar a descamação.
    • Corticosteroides tópicos: Reduzem a inflamação local; cuidado com uso prolongado (pode causar afinamento da pele).
    • Análogos da vitamina D (calcipotriol): Regulam a proliferação dos queratinócitos; frequentemente combinados com corticosteroides.
    • Tacrolimo e pimecrolimo (inibidores de calcineurina): Úteis em áreas sensíveis como rosto e dobras, onde os corticoides são menos indicados.
  2. Tratamentos de médio prazo
    • Fototerapia (UVB de banda estreita): Excelente opção para pacientes com placas moderadas a extensas; sessões em clínica 2–3 vezes por semana.
    • Metotrexato: Ação anti-inflamatória sistêmica; usado em crises mais intensas ou artrite psoriásica.
    • Acitretina: Retinoide oral que normaliza a diferenciação celular; útil em psoríase pustulosa e eritrodérmica.
    • Ciclosporina: Imunossupressor potente; indicado para casos graves, mas com risco de toxicidade renal e hipertensão.
  3. Tratamentos de longo prazo (biológicos e terapias-alvo)
    • Antagonistas de TNF-α (etanercepte, adalimumabe, infliximabe): Bloqueiam citocinas-chave na inflamação.
    • Inibidores de IL-17 (secuquinumabe, ixekizumabe): Altíssima eficácia na redução de placas.
    • Inibidores de IL-23 (ustecinumabe, guselcumabe, risancizumabe): Boas taxas de remissão e perfil de segurança favorável.
    • Outros agentes (apremilaste): Inibidor de PDE4, em comprimido, indicado para psoríase moderada a grave.
  4. Mudanças no estilo de vida
    • Alimentação equilibrada e manutenção de peso saudável: Metabolismo inflamatório fica mais controlado.
    • Controle de estresse: Psicoterapia, técnicas de relaxamento e atividades físicas regulares.
    • Evitar gatilhos: Tabaco, álcool em excesso e uso indiscriminado de medicamentos desencadeantes.

Acompanhamento de longo prazo

  1. Frequência das consultas:
    • Fase inicial: avaliações mensais para ajuste rápido do tratamento.
    • Fase de manutenção: consultas a cada 3–6 meses, conforme estabilidade.
  2. Exames de monitoramento:
    • Hemograma completo, função hepática e renal (para pacientes em metotrexato, ciclosporina).
    • Perfil lipídico e glicemia (risco de síndrome metabólica).
    • Avaliação de imunidade (para usuários de biológicos).
  3. Avaliação da qualidade de vida:
    • Uso de questionários como DLQI (Dermatology Life Quality Index) para mensurar impacto emocional e social.
  4. Registro fotográfico:
    • Fotografias padronizadas das lesões para documentar evolução.
  5. Ajustes de terapia:
    • Intensificar ou desmamar medicações conforme resposta.
    • Planejar pausas terapêuticas (drug holidays) em alguns casos para evitar resistência.
  6. Educação contínua:
    • Ensinar técnicas de aplicação de medicamentos tópicos.
    • Orientar sobre fotoproteção e cuidados gerais da pele.
  7. Integração multidisciplinar:
    • Reumatologista (para artrite psoriásica), psicólogo, nutricionista e fisioterapeuta, se necessário.

Importância de manter o mesmo dermatologista

  1. Visão integral e histórica: O mesmo médico acompanhará as reações individuais do paciente, lembrando das particularidades do histórico familiar, hábitos e resposta a medicamentos.
  2. Ajustes personalizados: Com base no padrão de resposta, o dermatologista poderá antecipar crises, prevenir efeitos adversos e adequar doses.
  3. Confiança e acolhimento: A relação médico-paciente fortalece a adesão ao tratamento e permite discussões abertas sobre medos, expectativas e possíveis barreiras.
  4. Continuidade do cuidado: Evita prescrições desconexas, duplicidade de exames ou terapias menos indicadas.
  5. Melhor custo-benefício: Consultas e exames são planejados de forma otimizada, reduzindo gastos desnecessários.

 

Conclusão


A psoríase é uma doença autoimune crônica que exige diagnóstico precoce e manejo adequado para controlar as lesões cutâneas, prevenir manchas e cicatrizes permanentes, bem como reduzir o risco de complicações sistêmicas. O arsenal terapêutico evoluiu significativamente, oferecendo opções eficazes para curto, médio e longo prazo, desde cremes hidratantes até drogas biológicas de última geração. Porém, nenhum medicamento substitui a importância de um acompanhamento contínuo e personalizado com o mesmo dermatologista, garantindo segurança, confiança e melhores resultados.

Se você desconfia de psoríase ou já possui diagnóstico, agende uma consulta em nosso consultório especialista em Dermatologia Infantil. A continuidade do cuidado, aliada a um plano de tratamento individualizado, faz toda a diferença na sua qualidade de vida — hoje e no futuro.

Este artigo foi elaborado para fins informativos e não substitui a avaliação médica individualizada. Em caso de dúvidas ou sintomas, procure sempre um dermatologista. 

Dra. Daniela Gontijo Andrade Junqueira 

Dermatologista

 

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